Com as duas pernas amputadas, mestre de obras trabalha de sol a sol, em Araraquara

Imagem do mestre de obras em cima do telhado trabalhando.
Imagem do mestre de obras em cima do telhado trabalhando.

 

 

 

Delfino Lima de Jesus teve as pernas amputadas há dez anos

 

“É um exemplo de vida que a gente tem o privilégio de trabalhar todo dia ao lado”, diz o pedreiro Sílvio Carlos da Silva, de 34 anos. “Quando a gente está desanimado em mais um dia de trabalho, olhamos para ele e nos dá força para não desanimarmos.”

O pedreiro está se referindo ao seu mestre de obras, Delfino Lima de Jesus, 52, que encontramos trabalhando sob o sol quente das 15 horas de ontem na construção de um salão comercial, no Jardim Santo Antônio, em Araraquara.

O motivo é que Delfino Lima não tem as duas pernas. Foram amputadas há 10 anos, após uma trombose desencadeada pelos anos fumando cigarro. “Fumava três maços de cigarros por dia. Era um vício”, comenta o mestre de obras.

Após a amputação, Lima saiu do hospital pesando apenas 23 quilos. Oito meses depois, estava com mais de 70 quilos novamente e em seu primeiro trabalho após a amputação. “Conheci muita gente que perdeu algum membro e passou a ter um mau humor insuportável. Não sou assim”, diz ele, enquanto ajeita algumas telhas na armação de um telhado.

Independência


Dentre as razões que fizeram com que o mestre de obras seguisse trabalhando foi se olhar no espelho e se ver uma pessoa ‘normal’ e independente. “Não me sinto deficiente em absolutamente nada. Trabalho normalmente e não dependo de ninguém”, emociona-se.

O maior orgulho
Mas o maior orgulho de Lima de Jesus é ter colocado o ‘pão na mesa’ e sustentado os três filhos durante mais de 10 anos. Ao vê-los hoje, todos com mais de 20 anos, diz: “tenho certeza de que eles se orgulham muito do pai deles”, diz, emocionado.

 

Na rede social
A história de vida de Delfino já foi tema de reportagens em uma TV local, mas se tornou destaque novamente após uma publicação em uma rede social.

A autora da publicação estava passando pela rua onde ele trabalha e ao vê-lo pediu para fotografá-lo. “Quando me deparei com esse senhor, tive que dar marcha ré e ir falar com ele. Me impressionou muito o fato de ele trabalhar com um sorriso e ser muito orgulhoso de seu trabalho, como deveria ser para todos que possuem dois braços e duas pernas”, comentou a autora da postagem, compartilhada dezenas de vezes.

‘Não me sinto um deficiente. Faço tudo sozinho’
Essa frase dita por Delfino de Jesus traduz a sua rotina. A ausência das suas duas pernas não o atrapalha em quase nada. Ele sobe em escadas, ergue muros de tijolos, monta telhados, conserta fiações elétricas, entre outros serviços com uma naturalidade que poucos conseguem.

Jesus não utiliza cadeiras de rodas nem é adepto a muitos apetrechos para melhorar sua vida. Prefere caminhar com as mãos no chão e se locomover totalmente com a força de seus dois braços.

São as mãos também as responsáveis por dirigir o carro adaptado. “Esse é automático. Uma beleza. Mas há anos eu dirigia uma kombi só com as mãos. Eu mesmo desenvolvi um sistema para dirigí-la”, relembra.

Além da força de vontade de não desanimar na criação dos filhos, o mestre de obras garante que a religião também foi seu ‘muro de arrimo’ para não deixar o desâmimo chegar. “Vou continuar trabalhando, de sol a sol, até quando Deus me permitir. Só peço paz e saúde para continuar vivendo minha vida, normal, tranquila e com o sorriso no rosto”, brinca.

 

Fonte: Tribuna de Araraquara

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